Mais vida, rubra noite!
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
Mais café!
Oi, estranha. Podia começar com o clichê você-vem-sempre-aqui, mas parece que já estavas aqui há um tempo. Eu é que não percebi. Tantos rostos comuns, bocas retocadas, íris coloridas detrás de lentes escuras e peles recobertas pelo bronzeado do sol. Fica difícil perceber o novo. Mas a vida é mesmo assim, de repente se impõe na frente de tudo e as coisas se esclarecem à força, ainda que prazerosamente. Mas me perdoa. Deixa eu começar de novo. Ontem peguei um café com dois torrões de açúcar e muita geleia de morango na torrada, e resolvi sentar diante do mundo em dezessete polegadas e percorrer moradas onde não me encontro mais. E qual não foi a surpresa quando me encontrei onde nunca havia morado, nos recantos sinuosos do enlevo da tua boca, agraciada por fundas covinhas ao redor, cuja gravidade na mesma hora me acertou. Meus olhos se encantaram pelo que viam, brilhando no redemoinho de afinidades com que me deparava. Desconfiei daquilo, pisquei três vezes para desembotar a visão, mas tu não me fugias. Continuavas ali, bela e sorridente, a me desafiar os brios e a sanidade. Moral, ética, bons costumes, que se dane o mundo, preciso mesmo é saber de ti. Conta-me da tua vida. Dos teus passos. Dos teus erros e acertos. Dos nossos planos pro futuro. O quanto antes, melhor. Mas, se precisar, espero uma década.
sábado, 16 de julho de 2011
Quinze de julho
Efemérides sempre mexem comigo daquela forma que só uma mulher sabe sentir e entender. Mas as tais datas comemorativas... Parecem-me exatamente um pretexto para celebrar.
E é algo desapontador perceber que precisamos delas para nos permitirmos uma pausa nos 365 sufocantes dias, 5 horas e 48 minutos de uma translação a fim de refletirmos sobre o que nos cerca. E realmente precisamos, em meio a tanta alienação. Mas, com data ou sem data, não há como deixar de perceber a enorme beleza de ser homem. De carregar em si a fortaleza de uma vida, de ostentar poder e força, ainda que por dentro se deparem com os mesmos problemas de toda viv’alma.
A graça de ser homem é se saber provedor, protetor, seguro de si e dos outros, e de repente se amparar nos ombros de um velho amigo ou daquela mulher – mãe, amiga, amante. Todo homem é lindo quando se vê numa encruzilhada e desenlaça seus desafios sozinho. Mas fica ainda mais charmoso quando aceita a ajuda de alguém e se permite compartilhar um pouco de seu misterioso mundo mudo.
O silêncio e a falta de palavras são muito comuns, e transpiram aquela etérea incógnita que muitas vezes permeia a mente masculina. Sentem vontade de falar, mas não dizem. Protegem-se em meio à reserva, cientes de que são o alvo mais fácil e preferido de todos. Criam muralhas que por vezes os afastam do jeito simples e primitivo do gostar. Mas também formam fiéis grupos de amigos, nos quais se comunicam implicitamente e apóiam um ao outro, deixando em segundo plano a terrível mesquinharia de invejar. Descobrem a felicidade por trás de um filho, o intangível amor de que não se acreditavam capazes. Por vezes querem se mostrar superiores. Mas isso é só consequência do enorme valor e estima que a eles atribuímos: acreditam que nosso louvor é inadequado, e se esforçam por sempre melhorar.
E, para conquistá-los, dá-lhe criatividade, perspicácia e perseverança.
Vale tudo a pena: são uns amores quando se entregam, de corpo e alma, à beleza da vida. Viram poetas, artistas, escritores ou simplesmente viventes da tranquila sabedoria de existir. E transmitem tal conhecimento com uma habilidade admirável: tornam-se mestres da vida, versados professores do mundo que podemos ver.
E é algo desapontador perceber que precisamos delas para nos permitirmos uma pausa nos 365 sufocantes dias, 5 horas e 48 minutos de uma translação a fim de refletirmos sobre o que nos cerca. E realmente precisamos, em meio a tanta alienação. Mas, com data ou sem data, não há como deixar de perceber a enorme beleza de ser homem. De carregar em si a fortaleza de uma vida, de ostentar poder e força, ainda que por dentro se deparem com os mesmos problemas de toda viv’alma.
A graça de ser homem é se saber provedor, protetor, seguro de si e dos outros, e de repente se amparar nos ombros de um velho amigo ou daquela mulher – mãe, amiga, amante. Todo homem é lindo quando se vê numa encruzilhada e desenlaça seus desafios sozinho. Mas fica ainda mais charmoso quando aceita a ajuda de alguém e se permite compartilhar um pouco de seu misterioso mundo mudo.
O silêncio e a falta de palavras são muito comuns, e transpiram aquela etérea incógnita que muitas vezes permeia a mente masculina. Sentem vontade de falar, mas não dizem. Protegem-se em meio à reserva, cientes de que são o alvo mais fácil e preferido de todos. Criam muralhas que por vezes os afastam do jeito simples e primitivo do gostar. Mas também formam fiéis grupos de amigos, nos quais se comunicam implicitamente e apóiam um ao outro, deixando em segundo plano a terrível mesquinharia de invejar. Descobrem a felicidade por trás de um filho, o intangível amor de que não se acreditavam capazes. Por vezes querem se mostrar superiores. Mas isso é só consequência do enorme valor e estima que a eles atribuímos: acreditam que nosso louvor é inadequado, e se esforçam por sempre melhorar.
E, para conquistá-los, dá-lhe criatividade, perspicácia e perseverança.
Vale tudo a pena: são uns amores quando se entregam, de corpo e alma, à beleza da vida. Viram poetas, artistas, escritores ou simplesmente viventes da tranquila sabedoria de existir. E transmitem tal conhecimento com uma habilidade admirável: tornam-se mestres da vida, versados professores do mundo que podemos ver.
segunda-feira, 27 de junho de 2011
Banderas e fuscas
Há tanta coisa que deixei de saber nesses últimos meses. A caneta implorava por registrar em tinta o que fluía em ternas ondas de minha memória. Mas deixei de escrever, por querer deixar de sentir. Sentir o novo, veja bem. A felicidade me acompanhava de perto, e não queria que nada a atrapalhasse. Mas, como de costume, fronteiras nunca conseguem separar por completo dois países, e acabei me deixando envolver por teus pensamentos. Teus lábios tristes hoje me sorriem em súplica, e nessas noites perfumadas sinto a imensa vontade de te trazer a mesma felicidade com um roçar de mãos e um olhar mais quente. Em vez disso, vejo o vazio e o medo, a corajosa decisão de não mais se deixar à mercê dos ventos e tormentas. E me sinto incapaz de ajudar, por mais que tente. Mas, e te juro, minha tempestade sabe ser calma.
terça-feira, 17 de maio de 2011
Dois minutos e silêncio
Em poucos dias juntos em rotações orbitais, nunca tantas palavras haviam sido antes publicadas. Mas a cada palavra que escrevia, meia dúzia se sufocava na garganta, presa pela falta de tempo, disposição ou coragem. As engrenagens precisavam de óleo outra vez, mas hesitava ao pensar nas arengas que diria assim que pudesse. Os minutos corriam ao contrário, as horas de seu dia decresciam, e tudo parecia uma sinestesia louca de sabores metálicos e aromas salobros. Não confiava nem mais em seus sentidos, e tampouco lhes dava razão alguma para confiarem nela. O último passatempo preferido era ludibriá-los em cada vão sorriso, nos dentes que se abriam para quem não sabia de sua hostilidade. Seus sentidos, esses acreditaram por várias vezes, cozinharam esperança, inflamaram o corpo todo. Doeram de saudades. Mas as letras só voltaram para provar que era melhor ficar calada.
terça-feira, 1 de março de 2011
Ode ao S
Vivo cada vez mais convencida de que nos parecemos em diversos e espantosos aspectos com aqueles répteis escamados e serpejantes que muitos têm por prática odiar. Carnívoros, muitos se valem de doses moderadas ou intensas de peçonha a fim de acabar com o inimigo; outros lançam mão da tática de sufocamento, sorrateiros e ferozes ao atacar a vítima sem deixar muitos vestígios. Não costumam mastigar a comida – e também aí, por infortúnio, identifico vários da nossa espécie –, engolindo-a inteira em completa gulodice. E muitas vezes triplicam de tamanho depois das refeições, e precisam de uma longa sesta para digerir tudo. Tantas coincidências. Mas ora se não é a ecdise, o genial processo de troca de pele que ocorre de tempos em tempos por toda sua vida, o que mais me espanta. Tais bichos se escondem em lugares seguros, param de comer, e esperam por um tempo até que a pele velha se descole da nova logo abaixo. Então a rompem e se arrastam para fora da roupa antiga, raspando e se esfregando em superfícies duras e ásperas para facilitar a troca. E fazem isso, entre outros motivos, para se livrar da “vida” gasta, dos parasitas externos, do que atrapalha. Como fênices, renascem. Tanto é assim que são símbolo de saúde, amplamente utilizados com tal conotação por veneradores de Esculápio, e ainda por insipientes adoradores de Mercúrio. Essa capacidade de se livrar de seus pedaços destruídos e se ver pronto para uma nova fase, ainda que com o corpo de outrora, repete-se a cada alvorada, em cada verso de Cartola, por todas as fronteiras desse gigante rotundo e azulado. E é um tremendo alívio perceber que deixamos para trás os traumas e machucados, dispostos a nos aventurarmos pelas mesmas embrenhadas matas onde um dia já nos perdemos. Periodicamente, isso nos reconforta. As serpentes nos aliviam. E me fascinam.
domingo, 30 de janeiro de 2011
Rio Rasante
Hoje me peguei pensando nessas letras que te são comuns. Outra vez, admito. Por mais que tentasse me distrair, as horas passavam lentas e arrastadas, esperando pelas voltas do ponteiro. Queria que chegasse logo. Mesmo sabendo que não adiantaria muito. Ainda assim, era uma desculpa para aquele recado há tanto planejado e repensado. Um motivo a mais para falar contigo, ainda que, por mim, não precisássemos de motivo nenhum além do óbvio. Faz calor aí, eu sei. E chove. Mas as águas por aqui tampouco deram trégua; queimaram minha pele pelo simples desejo de melhorar tudo. As bestas animalizadas que te assustam o sono também me aparecem em pensamento. Fico preocupada ao me lembrar da selva em que te encontras, e acabo esquecendo a própria selvageria que me come a alma de pouco em pouco. Hás de ficar contente quando souberes que tudo vai bem pelas montanhas e que me aproximei de vez do que nos liga. Da vida que pulsa em cada um temerosa pelo que há de vir. Só sei que o verde dessas matas reflete teu sorriso tímido escondido nas mechas castanhas do teu cabelo, num jazz solto de desenho animado que reforça o sabor desses lábios aventureiros. A sede me ataca o pensamento de repente, e a boca seca feito lagoa num dia de poucos jacarés com aqueles batimentos acelerados que me impulsionam o sangue. Tua música, entretanto, ressoa nos recantos mais escuros e me indica a luz que muito em breve volta; então me sinto feliz.
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
Por fim,
L'oiseau est transformé
dans quelque chose d'autre qu'heureux.
Ainda me lembro bem do dia em que primeiro ouvi teu nome. Desde o começo, viera ligado a uma parte do meu futuro que eu mesma desconhecia. Não demorou muito para que virasse rotina, termo constante nas minhas madrugadas insones. Admito agora que aprendi contigo a não dormir, muito antes de te conhecer. Fazia de tudo para ficar acordada e poder trocar umas palavras a mais, ver outro sorriso gelado escapar sem querer e conseguir aos poucos pequenas e deliciosas confissões. Meu dia passou a ter mais graça à noite, a fazer mais sentido sob as estrelas. Perdi a conta das vermelhidões que me perpassaram o rosto com palavras quentes e risos ternos. Ainda hoje me vejo acordada abraçando a escuridão da lua até que ela também desapareça por mais algumas horas. Depois de umas quantas semanas assim, pude finalmente me esquentar com teus braços seguros, afundar a cabeça em teu peito aberto e me inebriar com o perfume da tua pele. Roçar os dedos por teus cachos ralos e macios, labirínticos. Todo o meu ar independente sumiu no mesmo instante em que teus olhos me atacaram verdes de sabor e tesão. Mas em ti fiquei mais forte, quebrei travas que me cercavam, afastei-me de quem me fazia mal sem saber. Ganhei um mundo novo que lentamente nos aproximou, embora eu imaginasse que já estivéssemos irrevogavelmente conectados. Tive a honra de me apaixonar por tua cidade através de teus olhos, de cantar a vida por tuas músicas e poesias, de conhecer pessoas admiráveis que até hoje trago fundo no peito. Ainda sinto o cheiro do mar ao recordar nossas caminhadas tímidas, tempestuosas ou ardentes pela areia grossa. Sei o quanto te aborreci, e sei o quanto te fiz feliz sob holofotes azuis de brumas artificiais, ainda que baixinho. Malhei meu coração, sonhei com mundos alheios. Estuprei retinas que conseguiam me entender, ainda que não quisessem ou pudessem. Ainda o faço de vez em quando, mas prometo que isso um dia acaba. Sei que pássaros em sua vida contente são mera utopia em teus lábios bravios, e entendo que a companhia uma hora tenha de partir. Não conheço a data dessas linhas, mas o tempo se encarrega de chegar. Um tempo de recomeços, de novos sorrisos, de abraços cada dia mais apertados. Sem que eu tenha de mentir o que transparece nos olhos embotados de outros braços.
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