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Rio Rasante

Hoje me peguei pensando nessas letras que te são comuns. Outra vez, admito. Por mais que tentasse me distrair, as horas passavam lentas e arrastadas, esperando pelas voltas do ponteiro. Queria que chegasse logo. Mesmo sabendo que não adiantaria muito. Ainda assim, era uma desculpa para aquele recado há tanto planejado e repensado. Um motivo a mais para falar contigo, ainda que, por mim, não precisássemos de motivo nenhum além do óbvio. Faz calor aí, eu sei. E chove. Mas as águas por aqui tampouco deram trégua; queimaram minha pele pelo simples desejo de melhorar tudo. As bestas animalizadas que te assustam o sono também me aparecem em pensamento. Fico preocupada ao me lembrar da selva em que te encontras, e acabo esquecendo a própria selvageria que me come a alma de pouco em pouco. Hás de ficar contente quando souberes que tudo vai bem pelas montanhas e que me aproximei de vez do que nos liga. Da vida que pulsa em cada um temerosa pelo que há de vir. Só sei que o verde dessas matas re...

Por fim,

L'oiseau est transformé dans quelque chose d'autre qu'heureux. Ainda me lembro bem do dia em que primeiro ouvi teu nome. Desde o começo, viera ligado a uma parte do meu futuro que eu mesma desconhecia. Não demorou muito para que virasse rotina, termo constante nas minhas madrugadas insones. Admito agora que aprendi contigo a não dormir, muito antes de te conhecer. Fazia de tudo para ficar acordada e poder trocar umas palavras a mais, ver outro sorriso gelado escapar sem querer e conseguir aos poucos pequenas e deliciosas confissões. Meu dia passou a ter mais graça à noite, a fazer mais sentido sob as estrelas. Perdi a conta das vermelhidões que me perpassaram o rosto com palavras quentes e risos ternos. Ainda hoje me vejo acordada abraçando a escuridão da lua até que ela também desapareça por mais algumas horas. Depois de umas quantas semanas assim, pude finalmente me esquentar com teus braços seguros, afundar a cabeça em teu peito aberto e me inebriar com o perfume d...

Das poeiras que me cercam o sorriso

Não sei mais o que é adeus. Ou a Deus. Fui perdendo os dois aos poucos, mas posso me lembrar vividamente do dia em que descobri o que era ir embora. Fazia frio, e eu tinha acordado cedo para uma das obrigações infantis de uma família então católica. Escutava há duas horas cantorias e pais-nossos e fábulas sobre o joio, o trigo e os homens. Toda aquela atenção a histórias que perdiam a graça perto dos Lobatos e Shakespeares me entediava um pouco. Completava meu livro com palavras copiadas da página anterior, como dizia no enunciado, já certa de que havia algo de errado naquilo tudo. E pensava nos olhos dele. Naquela ternura azul brilhante que irradiava toda vez que sorria. O lugar onde me encontrava agora aumentava minhas preces, que não se pareciam em nada com o que me haviam ensinado. Tinha aprendido a conversar com Ele nas noites de lua clara em que os gritos e brigas reinavam na cozinha logo abaixo de meu quarto. Costumava fugir para o quarto de ninguém, abrir a enorme janela de v...

No palco descampado

—Ainda escrevo pela necessidade de expulsar o que sobrou – disse ele, por linhas tortas que não eram para mim. Mas era como se tivessem saído de minha boca. Cada palavra gélida e triste, carregada da felicidade do amor que um dia foi, e que então resolveu ir de vez, e nunca mais voltou. Sinto cada pensamento dele correndo pelas sinapses, como se fossem apenas velhas memórias que eu estivesse relembrando. Sei que deve parecer um pouco psicótico. Mas foi isso o que pensei, como era possível que soubesse tudo a meu respeito? Ou que duas histórias se repetissem? Ou que cada vírgula e pausa combinassem perfeitamente comigo? Sei que nas montanhas as noites são parecidas. Na imensidão de terras e vales, o olhar é logo atraído pelo céu, fascinado por suas nuvens embaçadas e raios de luz atravessados. Não há mar que leve para longe as saudades de tantos dias. Não há Iemanjá que resolva nossos problemas. Cai tudo sobre nós, que recorremos ao campo para transformar cada semente de emoção na últi...

Quanto do teu sal

A sétima palavra mais difícil de ser traduzida no mundo todo não é outra que não a nossa Saudade. Cunhada através dos tempos por meio do latim para Solidão, nossa Saudade criou raízes na época das grandes navegações, provavelmente para descrever o sentimento das mulheres deixadas para trás pelos marinheiros de outrora. Uma sensação de falta, um desejo de possuir o que já fora seu, a privação da companhia, a solidão, certa incompletude, melancolia e nostalgia. O sentimento da espera. Tudo junto. Saudade, em sua essência, transcrevia um sofrimento. A dor da perda, do tempo atuante, da distância. Algo que só acabava se o matassem. O que torna ainda mais curioso como, nos tempos modernos, criamos certa veneração pela Saudade. Conseguimos a proeza de transformá-la em um sentimento belo, bonito de ser sentido e vivido. Lembranças doloridas passaram a nos trazer um sorriso aos lábios junto às lágrimas quase secas. O mar salgado de Fernando Pessoa já estaria doce nos tempos de hoje. Aprendemo...

Stiflesiac

Com você aprendi na marra a ser menos egoísta, a amar de longe o que jamais estaria perto, a ter carinho quando tudo o que eu sentia era ódio. A segurar nos olhos as gotas amargas ao ver um sorriso, a abafar o grito incapaz de julgar. Não fiz mais manha ao perder uma discussão, e descobri como abandonar silenciosamente qualquer navio que naufraga. Aprendi a ter insônia. Parei de procurar pelo elo perdido e me cansei do mundo explicado. Enfim, enchi as malas de dúvidas e percebi que podia, sim, ser divertido conhecer o futuro aos poucos, de partida em partida, de país em país. Ainda que seja pouco.

Um mergulho da alma

Depois de um maravilhoso dia de sono, desperto com a alegria renovada de quem cumpriu seu dever. Abro as janelas para respirar o ar fresco de um fim de tarde. O sol ainda brilha tênue no horizonte enquanto pego uma calcinha limpa e uma regata e atravesso o quarto até chegar no banheiro. Esqueço a porta aberta, mas não há ninguém em casa. Desço as calças do pijama, que deslizam pelas pernas como cetim e logo caem ao chão. A calcinha é a próxima, e tem o mesmo destino da blusa. Passo uma escova pelas mechas revoltosas do cabelo, tirando os nós do travesseiro agitado de sonhos. Vou até o boxe e me aventuro com a ponta do pé no mármore gelado. A temperatura sobe em calafrios pelos dedos, tornozelo e perna. Estico a mão e abro o chuveiro. Bem pouco, só um filetinho de água fervente. O choque térmico me preenche com uma sensação de prazer infantil. Sei que posso mais. Continuo a virar a válvula e a água cai num jorro pesado de gotas translúcidas. Passo o outro pé para dentro do boxe, e me a...