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Um pouco muito

De tudo ficou um pouco. Ficou um pouco daquelas palavras ao telefone, dizendo-me que não mais forçasse o mundo ao meu redor. E ficou um pouco de curiosidade, um pouco de desalinho. Sei que ficou um pouco de ternura, um pouco de teu áspero silêncio. Um pouco fica oscilando na embocadura dos rios, e esse pouco me encaminha sempre a ti. Um pouco, não muito: de uma torneira, pinga esta gota absurda, meio sal e meio álcool, que me embriaga de teus sorrisos. Mas um pouco desse desejo é sempre muito, às vezes amor, às vezes loucura.

Mais café!

Oi, estranha. Podia começar com o clichê você-vem-sempre-aqui, mas parece que já estavas aqui há um tempo. Eu é que não percebi. Tantos rostos comuns, bocas retocadas, íris coloridas detrás de lentes escuras e peles recobertas pelo bronzeado do sol. Fica difícil perceber o novo. Mas a vida é mesmo assim, de repente se impõe na frente de tudo e as coisas se esclarecem à força, ainda que prazerosamente. Mas me perdoa. Deixa eu começar de novo. Ontem peguei um café com dois torrões de açúcar e muita geleia de morango na torrada, e resolvi sentar diante do mundo em dezessete polegadas e percorrer moradas onde não me encontro mais. E qual não foi a surpresa quando me encontrei onde nunca havia morado, nos recantos sinuosos do enlevo da tua boca, agraciada por fundas covinhas ao redor, cuja gravidade na mesma hora me acertou. Meus olhos se encantaram pelo que viam, brilhando no redemoinho de afinidades com que me deparava. Desconfiei daquilo, pisquei três vezes para desembotar a visão, mas ...

Quinze de julho

Efemérides sempre mexem comigo daquela forma que só uma mulher sabe sentir e entender. Mas as tais datas comemorativas... Parecem-me exatamente um pretexto para celebrar. E é algo desapontador perceber que precisamos delas para nos permitirmos uma pausa nos 365 sufocantes dias, 5 horas e 48 minutos de uma translação a fim de refletirmos sobre o que nos cerca. E realmente precisamos, em meio a tanta alienação. Mas, com data ou sem data, não há como deixar de perceber a enorme beleza de ser homem. De carregar em si a fortaleza de uma vida, de ostentar poder e força, ainda que por dentro se deparem com os mesmos problemas de toda viv’alma. A graça de ser homem é se saber provedor, protetor, seguro de si e dos outros, e de repente se amparar nos ombros de um velho amigo ou daquela mulher – mãe, amiga, amante. Todo homem é lindo quando se vê numa encruzilhada e desenlaça seus desafios sozinho. Mas fica ainda mais charmoso quando aceita a ajuda de alguém e se permite compartilhar um pou...

Banderas e fuscas

Há tanta coisa que deixei de saber nesses últimos meses. A caneta implorava por registrar em tinta o que fluía em ternas ondas de minha memória. Mas deixei de escrever, por querer deixar de sentir. Sentir o novo, veja bem. A felicidade me acompanhava de perto, e não queria que nada a atrapalhasse. Mas, como de costume, fronteiras nunca conseguem separar por completo dois países, e acabei me deixando envolver por teus pensamentos. Teus lábios tristes hoje me sorriem em súplica, e nessas noites perfumadas sinto a imensa vontade de te trazer a mesma felicidade com um roçar de mãos e um olhar mais quente. Em vez disso, vejo o vazio e o medo, a corajosa decisão de não mais se deixar à mercê dos ventos e tormentas. E me sinto incapaz de ajudar, por mais que tente. Mas, e te juro, minha tempestade sabe ser calma.

Dois minutos e silêncio

Em poucos dias juntos em rotações orbitais, nunca tantas palavras haviam sido antes publicadas. Mas a cada palavra que escrevia, meia dúzia se sufocava na garganta, presa pela falta de tempo, disposição ou coragem. As engrenagens precisavam de óleo outra vez, mas hesitava ao pensar nas arengas que diria assim que pudesse. Os minutos corriam ao contrário, as horas de seu dia decresciam, e tudo parecia uma sinestesia louca de sabores metálicos e aromas salobros. Não confiava nem mais em seus sentidos, e tampouco lhes dava razão alguma para confiarem nela. O último passatempo preferido era ludibriá-los em cada vão sorriso, nos dentes que se abriam para quem não sabia de sua hostilidade. Seus sentidos, esses acreditaram por várias vezes, cozinharam esperança, inflamaram o corpo todo. Doeram de saudades. Mas as letras só voltaram para provar que era melhor ficar calada.

Ode ao S

Vivo cada vez mais convencida de que nos parecemos em diversos e espantosos aspectos com aqueles répteis escamados e serpejantes que muitos têm por prática odiar. Carnívoros, muitos se valem de doses moderadas ou intensas de peçonha a fim de acabar com o inimigo; outros lançam mão da tática de sufocamento, sorrateiros e ferozes ao atacar a vítima sem deixar muitos vestígios. Não costumam mastigar a comida – e também aí, por infortúnio, identifico vários da nossa espécie –, engolindo-a inteira em completa gulodice. E muitas vezes triplicam de tamanho depois das refeições, e precisam de uma longa sesta para digerir tudo. Tantas coincidências. Mas ora se não é a ecdise, o genial processo de troca de pele que ocorre de tempos em tempos por toda sua vida, o que mais me espanta. Tais bichos se escondem em lugares seguros, param de comer, e esperam por um tempo até que a pele velha se descole da nova logo abaixo. Então a rompem e se arrastam para fora da roupa antiga, raspando e se esfregand...

Rio Rasante

Hoje me peguei pensando nessas letras que te são comuns. Outra vez, admito. Por mais que tentasse me distrair, as horas passavam lentas e arrastadas, esperando pelas voltas do ponteiro. Queria que chegasse logo. Mesmo sabendo que não adiantaria muito. Ainda assim, era uma desculpa para aquele recado há tanto planejado e repensado. Um motivo a mais para falar contigo, ainda que, por mim, não precisássemos de motivo nenhum além do óbvio. Faz calor aí, eu sei. E chove. Mas as águas por aqui tampouco deram trégua; queimaram minha pele pelo simples desejo de melhorar tudo. As bestas animalizadas que te assustam o sono também me aparecem em pensamento. Fico preocupada ao me lembrar da selva em que te encontras, e acabo esquecendo a própria selvageria que me come a alma de pouco em pouco. Hás de ficar contente quando souberes que tudo vai bem pelas montanhas e que me aproximei de vez do que nos liga. Da vida que pulsa em cada um temerosa pelo que há de vir. Só sei que o verde dessas matas re...