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No papel

Era uma tarde chuvosa, bonita. Asas coloridas borboleteavam por reflexos rubros do líquido que escorria pelo metal. O sol ardia na fétida fumaça esmeralda que fumegava no bueiro, e a caneta testemunhava o sushi do outro lado do mundo, o desfile em Milão, a casa de massagens tailandesa, o pianista grego e as crianças no jardim-porão austríaco. O sino, por sua vez, igrejava a tensão da noite que chegava, trazendo o sul de volta a seu norte. Em um desenho.

Seu Francisco

Não me leve a mal Me leve à toa pela última vez A um quiosque, ao planetário Ao cais do porto, ao paço O meu coração, meu coração Meu coração parece que perde um pedaço, mas não Me leve a sério Passou este verão Outros passarão Eu passo Não se atire do terraço, não arranque minha cabeça Da sua cortiça Não beba muita cachaça, não se esqueça depressa de mim, sim? Pense como eu vim de leve Machuquei você de leve E me retirei com pés de lã Sei que o seu caminho amanhã Será um caminho bom Mas não me leve Não me leve a mal Me leve apenas para andar por aí Na lagoa, no cemitério Na areia, no mormaço O meu coração, meu coração Meu coração parece que perde um pedaço, mas não Me leve a sério Passou este verão Outros passarão Eu passo (música de Chico Buarque, "Leve")

De mesmo nome

Num espaço pequeno, tantas pessoas se esbarram. Deixo-o para depois a ele voltar. Sei que faz parte do meu futuro, apesar de estar no meu presente. E no meu futuro, presente será, que coisa. E meu presente, que futuro tem? O mais belo do mundo, apresentado num tempo que não tem espaço, não tem hora, não tem cor. Junta tudo e faz disso meu medo, minha aflição, meu desprivilégio. O que tenho a dar? Que tenho, sim, a esperar. Ansiosamente pelas passagens doces do avião.

Do/Ao Dia 17

Dizem por aí que a vida da gente precisa de alguém. Aquele especial que vai trazer as verdadeiras felicidades e os mais improváveis prazeres. Nunca acreditei nisso. Desde pequena, sempre quis viver por mim mesma. Tive meus casos, é claro, mas, ainda assim, não esperava muito deles. O que importava era o momento, e sempre foi assim. Tinha horrores à idéia do príncipe que me levaria ao seu castelo e seríamos felizes para sempre. Claro, eu me achava uma boa arquiteta. Sabia que meu castelo seria muito mais bonito do que qualquer castelo pré-moldado que alguém viesse a me oferecer. Aí veio um outro alguém, rompendo meus alarmes e barreiras de proteção. Fazendo o que muitos já tinham feito, só que de um jeito inesperada e deliciosamente diferente. E não sei se faço mal em afirmar aqui que o mérito não era exclusivamente teu. Tinha algo mais no ar, provavelmente o teu perfume, que me derrubou em uma única laçada. Esse teu cheiro boêmio, teus dentes magnéticos e tua fala tão sublime. Levou-me...

Con-Indicações

Sinto muito por você. Quando vejo seus sorrisos, logo eles me trazem aquelas tardes no quintal de casa, as brincadeiras, os planos, as conversas de madrugada. Você era interessante, conseguia se dar bem em quase tudo sem muita ajuda, atraente. Tinha tudo o que queria. Mas passa rápido por meus pensamentos a época das primeiras saídas e descobertas, e dá lugar aos desencontros. Talvez porque na verdade você não tivesse tudo o que queria. Ou não quisesse tudo o que tinha. Ou quisesse torto, seja lá como isso for. Fato é que o estrago foi-se dando aos poucos, efetivamente. Inconstante, você me abordava cada dia de um jeito. Suas intenções variavam. Ou o que variava era meu grau de aceitação? Tentei lhe deixar em seu lugar. Tento, ainda hoje. Não que ele o seja ruim, desagradável ou profano - deve ser de seu agrado, afinal, cavou-o por si só. Embora eu me recuse muito a acreditar. Procuro possíveis álibis seus, mas, juro, não os encontro. Vou sempre guardar um carinho imenso, ainda que o r...

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Adultos são tão infantis quanto seus sonhos os permitem ser. Jovens são tão maduros quanto lhes ditam suas experiências. Escritores são tão estranhos quanto reais.

Carta ao Bonde

Prezado Veículo, Conhecedor de vosso caráter particularmente público, venho por meio desta expressar minha profunda indignação ao fato ocorrido ontem, mais precisamente à metade do dia intitulado o oitavo do terceiro mês de nosso calendário finalmente gregoriano - finalmente, pois era inadmissível ter de esperar mais 400 anos para deixar Julius de lado. Enfim, triste me é perceber o quão distante vossa senhoria ainda se faz de vossos pobres passageiros pobres. Compreendo que tenhas toda uma tabela de horários, chegadas e partidas a cumprir, e que sejas instruído pelas mãos suadas de algum desjantado - e, portanto, desajustado. Ainda assim, pequenos segundos de inaptidão compromissal não justificam atitudes radicais como a vossa. O atraso que me acometeu no dia anterior a este estava fora de meu controle biológico, por maior e mais diversa que fosse minha fauna. Deus e todos os juízes hão de concordar comigo que as vísceras de um homem sofrem de TPMs incontroláveis. Pois bem, embora v...