Quando cansa, o corpo cansa, tudo cansa, cansa mais de não girar. O cansaço treme e faz o que nunca mais irei sonhar. Quantos planos, vãos enganos, ao ralo guiaram por tanto cansar. A noite chega, traz a vida e uma vontade de gritar. Passos ora grandes, cidades maravilhosas e tudo o mais que podia entrar. Agora tudo é náusea, o cheiro que faz vomitar. Se pudesse, lhe diria, mas o tempo está a se esgotar. Se salvamos, se perdemos, não há mais ajuda possível no ar.
Como é difícil amar um homem! Ao acordar, a falta do abraço, do rosto cansado, da pele áspera e tão, mas tão macia. Tudo me faz delirar. Toca uma música em algum lugar, vejo um filme, passa uma cena na televisão. Leio teu livro. E esse amor estranho me faz querer dividir tudo. Tudo o que antes, ah, antes era só meu. E fico confusa, sem saber o que fazer, como não ser chata ou irritante, ausente ou presente demais. Como matar todo o ciúme primitivo que acaba com as paixões. Das paixões, aliás, como manter o desejo vivo, num mar de estranhas doenças? Sinto a vida passar, e eu passo. Sem urgência, mas passo. E como é engraçado perceber que ainda não sei amar. Talvez Carson tivesse mesmo razão, pelo menos em algo. Da próxima vez, amo primeiro uma árvore. Um rochedo. Uma nuvem.
Ela plugou os fones de ouvido no notebook. Estava no ritmo de música, mas mesmo assim não perdia a besta educação de não incomodar os outros o máximo possível, ainda que esses outros a incomodassem. Havia tido um dia cheio, cansativo, e agora precisava descansar. Lembrou do latte que tomara no outro dia com as amigas, em como fora divertido perder-se junto de quem se gosta. Não era fácil, ela sabia, ordenar seus pensamentos. Eles voavam como cupins de primavera, intrometendo-se em todos os cantos e vãos onde a luz aparece. De repente, como se os cupins tivessem se transformado em abelhas rainhas furiosas uma com a presença da outra, a revolução começou. Um pensamento se debatia com o outro, mais bêbados do que se estivessem realmente ébrios. Como toda revolução, eles se muniram de vários argumentos, colocaram-nos em trouxinhas, pegaram as facas e canivetes e começaram a se atacar de todas as direções. As trouxinhas, claro, voaram longe. Em um estrondo silencioso, os argumentos se quebr...