E não é que ele despertou nela o desejo de mais um dia? Ele, o homem das contradições. Tanto dizquesim-dizquenão, talvez fosse mesmo pra deixá-la entusiasmada. Correu com o café, passou-lhe a geléia. Um sorriso lambuzado veio em agradecimento. Como era bom observá-lo ali, escondido pelas folhas do jornal molhado! Uma maçã distraída mergulhava em sua boca. E esta repassava as últimas horas: as fileiras no supermercado, o paliteiro do bar, a macarronada com azeitonas que só ele sabia fazer; o filme dorminhoco, a dor nas costas do sofá; e, por fim, lembrou-lhe a água que caíra à noite, trazendo consigo a insônia. Não que houvesse sido uma noite ruim. Pelo contrário, fora o melhor ontem de sua vida.
Quando cansa, o corpo cansa, tudo cansa, cansa mais de não girar. O cansaço treme e faz o que nunca mais irei sonhar. Quantos planos, vãos enganos, ao ralo guiaram por tanto cansar. A noite chega, traz a vida e uma vontade de gritar. Passos ora grandes, cidades maravilhosas e tudo o mais que podia entrar. Agora tudo é náusea, o cheiro que faz vomitar. Se pudesse, lhe diria, mas o tempo está a se esgotar. Se salvamos, se perdemos, não há mais ajuda possível no ar.
Há tanta coisa que deixei de saber nesses últimos meses. A caneta implorava por registrar em tinta o que fluía em ternas ondas de minha memória. Mas deixei de escrever, por querer deixar de sentir. Sentir o novo, veja bem. A felicidade me acompanhava de perto, e não queria que nada a atrapalhasse. Mas, como de costume, fronteiras nunca conseguem separar por completo dois países, e acabei me deixando envolver por teus pensamentos. Teus lábios tristes hoje me sorriem em súplica, e nessas noites perfumadas sinto a imensa vontade de te trazer a mesma felicidade com um roçar de mãos e um olhar mais quente. Em vez disso, vejo o vazio e o medo, a corajosa decisão de não mais se deixar à mercê dos ventos e tormentas. E me sinto incapaz de ajudar, por mais que tente. Mas, e te juro, minha tempestade sabe ser calma.