Quando cansa, o corpo cansa, tudo cansa, cansa mais de não girar. O cansaço treme e faz o que nunca mais irei sonhar. Quantos planos, vãos enganos, ao ralo guiaram por tanto cansar. A noite chega, traz a vida e uma vontade de gritar. Passos ora grandes, cidades maravilhosas e tudo o mais que podia entrar. Agora tudo é náusea, o cheiro que faz vomitar. Se pudesse, lhe diria, mas o tempo está a se esgotar. Se salvamos, se perdemos, não há mais ajuda possível no ar.
Ela plugou os fones de ouvido no notebook. Estava no ritmo de música, mas mesmo assim não perdia a besta educação de não incomodar os outros o máximo possível, ainda que esses outros a incomodassem. Havia tido um dia cheio, cansativo, e agora precisava descansar. Lembrou do latte que tomara no outro dia com as amigas, em como fora divertido perder-se junto de quem se gosta. Não era fácil, ela sabia, ordenar seus pensamentos. Eles voavam como cupins de primavera, intrometendo-se em todos os cantos e vãos onde a luz aparece. De repente, como se os cupins tivessem se transformado em abelhas rainhas furiosas uma com a presença da outra, a revolução começou. Um pensamento se debatia com o outro, mais bêbados do que se estivessem realmente ébrios. Como toda revolução, eles se muniram de vários argumentos, colocaram-nos em trouxinhas, pegaram as facas e canivetes e começaram a se atacar de todas as direções. As trouxinhas, claro, voaram longe. Em um estrondo silencioso, os argumentos se quebr...
Sonhei que tinhas outra. Que eram dela teus lábios molhados, os abraços apertados e os carinhos na nuca. Trocavam olhares como quem troca confidências no Arpoador. Sonhei que vivias noutra casa, entre paredes inóspitas e lençóis desconhecidos. Vi ainda algumas palavras atiradas ao vento, e este, zombeteiro, as trazia em minha direção, cuidando para que a dúvida permanecesse no ar. Recordo ainda uns poucos passos tímidos, desvanecendo-se na areia antes de se tornarem ondas. Lembro que, por fim, acordei, deixando a verdade oculta entre nuvens de intenções.