A vida ultimamente tem sido um circo. Mas daqueles de batalha. Tento, em vão, carregar-me das melhores armas disponíveis, sabendo que não estarão ali quando eu delas precisar. Mas preparar-me faz bem, anima a disposição, regula o intestino. Sinto que serei útil em breve. Útil para mim mesma, é verdade. Mas são pouquíssimos os sortudos que conseguem isso. Meu mês voa. O tempo dança com saudades de mim. Só que estou ausente. Angariando fundos para o confronto. Pesquisando táticas, estratégias, alternativas e, como em toda guerra, rotas de fuga. Fugir não é apenas sair correndo para longe do inimigo. É ficar, face serena e olhos calmos, observando a vitória do outro. E aceitar a nomeação que se impuser.
Como é difícil amar um homem! Ao acordar, a falta do abraço, do rosto cansado, da pele áspera e tão, mas tão macia. Tudo me faz delirar. Toca uma música em algum lugar, vejo um filme, passa uma cena na televisão. Leio teu livro. E esse amor estranho me faz querer dividir tudo. Tudo o que antes, ah, antes era só meu. E fico confusa, sem saber o que fazer, como não ser chata ou irritante, ausente ou presente demais. Como matar todo o ciúme primitivo que acaba com as paixões. Das paixões, aliás, como manter o desejo vivo, num mar de estranhas doenças? Sinto a vida passar, e eu passo. Sem urgência, mas passo. E como é engraçado perceber que ainda não sei amar. Talvez Carson tivesse mesmo razão, pelo menos em algo. Da próxima vez, amo primeiro uma árvore. Um rochedo. Uma nuvem.
Minha batina já está desbotada por cinco anos de profissão. Uma carreira empoeirada, se me permitem dizer. Mas meus grandes mestres - os terrenos - me ensinaram prestimosidades que duram por toda uma vida; confiar, por exemplo. Servos da ilusão e da matéria, nós, homens, temos a inegável pretensão de sermos melhores que o próximo. E, partindo dessa premissa, torna-se missão dificultosa acreditar em alguém à primeira vista. Aquela farpa fica incomodando nosso dedo, nos dizendo "não, não, não", quando tudo de que precisamos é um pouco mais de sins. Os céus já dizem, e eu tenho de reafirmar, não há chuva que não se anuncie por meio de nuvens. "Confiai, acreditai na bondade das pessoas, e não duvideis de suas intenções." Ontem, foi-me testado tal princípio. Lá de cima, Ele chorava rios e cachoeiras. Franzia o cenho e despejava cargas de trovões, transparentemente imundos. Aqui, o chão se desbarrancava, as árvores se assustavam e os animais faziam um silêncio ensurde...