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Um olhar duro sobre o serene

Eu queria pedir desculpas. Mas sabia que já não era culpa minha. Talvez nunca tivesse sido, na verdade. A velha mania de querer sempre me pôr na história, nem que fosse pra ser a culpada de tudo. A vilã, a mocinha, a figurante. Só queria participar. Se um dia algum destemido se propusesse a analisar as poeirentas páginas da minha infância, quiçá poderia dizer que fui muito reprimida, envergonhada, escondida. Mas apanhei muito até aprender a ficar calada. Cada estalo amargo era uma lágrima em silêncio que corria seca por meu rosto, ciente de não poder sequer existir. Aprendi a ser dura. Inclusive comigo mesma. Mas, como a larva que um dia se fecha e vira pupa, eu me abri ao mundo. Descobri que existir era muito mais que deixar calar. E talvez tenha tropeçado algumas vezes em deslizes infantis, sem saber ou poder saber escolher qual degrau era o mais firme. Por sorte, encontrei alguém ao meu lado, ajudando-me a subir a escada. Porém, também por ironia, acabei subindo degraus que ta...

Sonhos são mais que sonhos

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Ao longo de toda sua história, a humanidade sempre foi permeada por rituais de passagem, em particular aqueles que levam a juventude à vida adulta. Nesses processos de transformação e maturação da mente e do corpo, muitas vezes nos encontramos insatisfeitos com a vida, procurando alguma compensação. E aí há quem procure substâncias lícitas. Substâncias ilícitas. Mas a primeira droga de todas é uma só: o sonho. O sonho é um esboço de um plano traçado com delicadeza pela mente, que acaba por se demorar nesse projeto por dias, meses ou anos a fio, mesmo que inconscientemente. Ele prontifica o cotidiano dos que vão à luta e transformam suas realidades, ao mesmo tempo em que serve de refúgio para quem se pensa incapacitado de agir. Para estes últimos, o universo onírico traz certa gratificação, sob a forma de compensação interior. Mas, para os primeiros, os que batalham e por fim alcançam a materialização de um sonho, há que se reconhecer a imensa alegria trazida pela prática e pelos e...

Um pouco muito

De tudo ficou um pouco. Ficou um pouco daquelas palavras ao telefone, dizendo-me que não mais forçasse o mundo ao meu redor. E ficou um pouco de curiosidade, um pouco de desalinho. Sei que ficou um pouco de ternura, um pouco de teu áspero silêncio. Um pouco fica oscilando na embocadura dos rios, e esse pouco me encaminha sempre a ti. Um pouco, não muito: de uma torneira, pinga esta gota absurda, meio sal e meio álcool, que me embriaga de teus sorrisos. Mas um pouco desse desejo é sempre muito, às vezes amor, às vezes loucura.

Mais café!

Oi, estranha. Podia começar com o clichê você-vem-sempre-aqui, mas parece que já estavas aqui há um tempo. Eu é que não percebi. Tantos rostos comuns, bocas retocadas, íris coloridas detrás de lentes escuras e peles recobertas pelo bronzeado do sol. Fica difícil perceber o novo. Mas a vida é mesmo assim, de repente se impõe na frente de tudo e as coisas se esclarecem à força, ainda que prazerosamente. Mas me perdoa. Deixa eu começar de novo. Ontem peguei um café com dois torrões de açúcar e muita geleia de morango na torrada, e resolvi sentar diante do mundo em dezessete polegadas e percorrer moradas onde não me encontro mais. E qual não foi a surpresa quando me encontrei onde nunca havia morado, nos recantos sinuosos do enlevo da tua boca, agraciada por fundas covinhas ao redor, cuja gravidade na mesma hora me acertou. Meus olhos se encantaram pelo que viam, brilhando no redemoinho de afinidades com que me deparava. Desconfiei daquilo, pisquei três vezes para desembotar a visão, mas ...

Quinze de julho

Efemérides sempre mexem comigo daquela forma que só uma mulher sabe sentir e entender. Mas as tais datas comemorativas... Parecem-me exatamente um pretexto para celebrar. E é algo desapontador perceber que precisamos delas para nos permitirmos uma pausa nos 365 sufocantes dias, 5 horas e 48 minutos de uma translação a fim de refletirmos sobre o que nos cerca. E realmente precisamos, em meio a tanta alienação. Mas, com data ou sem data, não há como deixar de perceber a enorme beleza de ser homem. De carregar em si a fortaleza de uma vida, de ostentar poder e força, ainda que por dentro se deparem com os mesmos problemas de toda viv’alma. A graça de ser homem é se saber provedor, protetor, seguro de si e dos outros, e de repente se amparar nos ombros de um velho amigo ou daquela mulher – mãe, amiga, amante. Todo homem é lindo quando se vê numa encruzilhada e desenlaça seus desafios sozinho. Mas fica ainda mais charmoso quando aceita a ajuda de alguém e se permite compartilhar um pou...

Banderas e fuscas

Há tanta coisa que deixei de saber nesses últimos meses. A caneta implorava por registrar em tinta o que fluía em ternas ondas de minha memória. Mas deixei de escrever, por querer deixar de sentir. Sentir o novo, veja bem. A felicidade me acompanhava de perto, e não queria que nada a atrapalhasse. Mas, como de costume, fronteiras nunca conseguem separar por completo dois países, e acabei me deixando envolver por teus pensamentos. Teus lábios tristes hoje me sorriem em súplica, e nessas noites perfumadas sinto a imensa vontade de te trazer a mesma felicidade com um roçar de mãos e um olhar mais quente. Em vez disso, vejo o vazio e o medo, a corajosa decisão de não mais se deixar à mercê dos ventos e tormentas. E me sinto incapaz de ajudar, por mais que tente. Mas, e te juro, minha tempestade sabe ser calma.

Dois minutos e silêncio

Em poucos dias juntos em rotações orbitais, nunca tantas palavras haviam sido antes publicadas. Mas a cada palavra que escrevia, meia dúzia se sufocava na garganta, presa pela falta de tempo, disposição ou coragem. As engrenagens precisavam de óleo outra vez, mas hesitava ao pensar nas arengas que diria assim que pudesse. Os minutos corriam ao contrário, as horas de seu dia decresciam, e tudo parecia uma sinestesia louca de sabores metálicos e aromas salobros. Não confiava nem mais em seus sentidos, e tampouco lhes dava razão alguma para confiarem nela. O último passatempo preferido era ludibriá-los em cada vão sorriso, nos dentes que se abriam para quem não sabia de sua hostilidade. Seus sentidos, esses acreditaram por várias vezes, cozinharam esperança, inflamaram o corpo todo. Doeram de saudades. Mas as letras só voltaram para provar que era melhor ficar calada.