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Meus Bem-Quereres

O período de férias tem um fator de utilidade essencial, pois é quando você consegue se desligar do mundo por inteiro para conseguir repensá-lo com cuidado. E, ao ficar sozinha por muito tempo em terras estranhas, não há como evitar o sentimento de solidão e estranheza. Por isso, pode-se imaginar qual foi meu contentamento ao receber a seguinte mensagem, de um estimado amigo: "(...) ultimamente eu tenho convivido com as pessoas e tudo bem, mas quase todos os dias se eu estou sozinho e não quero estar eu fico me perguntando qual companhia seria do meu agrado, e por diversos motivos eu praticamente nunca tenho uma resposta. toda essa introdução foi só para dar um fundo para eu dizer que gostaria da sua companhia hoje, sei lá, num café. no lugar, cafeteria, eu não bebo café, eu tomaria um suco." Além de reforçar a sensação que me aparece nas férias, esse recado me fez ver como certas pessoas e conversas fazem falta em nossa vida, e nós acabamos por deixar do jeito que esti...

Antes das cinco

Ela plugou os fones de ouvido no notebook. Estava no ritmo de música, mas mesmo assim não perdia a besta educação de não incomodar os outros o máximo possível, ainda que esses outros a incomodassem. Havia tido um dia cheio, cansativo, e agora precisava descansar. Lembrou do latte que tomara no outro dia com as amigas, em como fora divertido perder-se junto de quem se gosta. Não era fácil, ela sabia, ordenar seus pensamentos. Eles voavam como cupins de primavera, intrometendo-se em todos os cantos e vãos onde a luz aparece. De repente, como se os cupins tivessem se transformado em abelhas rainhas furiosas uma com a presença da outra, a revolução começou. Um pensamento se debatia com o outro, mais bêbados do que se estivessem realmente ébrios. Como toda revolução, eles se muniram de vários argumentos, colocaram-nos em trouxinhas, pegaram as facas e canivetes e começaram a se atacar de todas as direções. As trouxinhas, claro, voaram longe. Em um estrondo silencioso, os argumentos se quebr...

Amor cachorro

Greg queria um cachorro. Pedira a sua mãe, e ela lhe respondera em tom ríspido, "Cachorros tomam tempo; vá estudar." Assim, cresceu isolado do contentamento que um bichano lhe traria, das descobertas e alegrias que invejava em seus colegas de classe. Não sabia o que era estar sozinho e ter companhia mesmo assim. Desconhecia as emoções trazidas pelo amor, ele, que não amava ninguém. Curtiu a infância como pôde, não teria feito nada diferente. Mas chegou à adolescência assim, sem saber o que era o amor. O amor; não a paixão. Pela paixão, passou diversas vezes ao longo dos anos. Sabia cada detalhe sórdido e brilhante que vem com a paixão, conhecia as músicas que tocavam, os poemas que liam, as camas em que deitavam. E o irritava que, na cama do amor, do puro amor, deitasse só. Homem feito, tinha sua mulher, e a amava. Mas não era amor. Não era aquele sentimento simples e honesto que todos dizem sentir por algo. Faltava-lhe. Perdia-se. Procurou por ele em carros, motos, amigos, b...

À Tua Procura

Lia-se na placa, escritório de advocacia. Era o que ela recordava dele. Da vida anterior, de seus sonhos, fora isso que ficara. Agora ele se tinha formado, não trabalhava mais com o pai; montara seu próprio escritório. Claro, ainda ficava no mesmo local, afinal era perto de onde morava também. Perto de todas aquelas mansões de marfim, cheias de piscinas e campos de futebol. Ela tocou a campainha, pois um aviso pregado no vidro da porta dizia para não bater. Abriu-lhe a porta uma loura estonteante, tanto mais refinada quanto mais justo o terninho vermelho que usava. Esses grandes nomes do poder sempre fazem questão de se rodear das mais belas carnes. ―Em que posso ajudá-la, senhora? ―Por favor, o Dr. Sovieman está? ―De que se trata? ―É assunto particular. ―Sinto muito, mas ele está extremamente ocupado. Precisa agendar um horário antes. O quadro na parede pendia ligeiramente torto. Deprimia-lhe que um diploma tão requintado e empoado de cobiça não fosse levado a sério. Afinal ela sabia,...

Esgotamento Gota a Gota

Quando cansa, o corpo cansa, tudo cansa, cansa mais de não girar. O cansaço treme e faz o que nunca mais irei sonhar. Quantos planos, vãos enganos, ao ralo guiaram por tanto cansar. A noite chega, traz a vida e uma vontade de gritar. Passos ora grandes, cidades maravilhosas e tudo o mais que podia entrar. Agora tudo é náusea, o cheiro que faz vomitar. Se pudesse, lhe diria, mas o tempo está a se esgotar. Se salvamos, se perdemos, não há mais ajuda possível no ar.

acho

eu acho que acho, porque acho, mas acho sem saber que acho que é tão verdade, que te amo.

Álcool, Fogo e Amores

Bola treze, vai na bola treze. A sinuca nunca fora sua maior paixão, embora envolver-se em problemas (mais do que sair de tais) fosse sua especialidade. Como havia criado confusões. E quase sempre não fez nada para resolvê-las, afinal, qual a graça de um circo se não estiver pegando fogo? Ainda que do fogo tivesse certo medo, a mão do rapaz é que tampava sua bebida flamejante, que em goles rápidos desaparecia. E depois vinham as longas conversas supostamente intelectuais, pois, por mais que se valorizasse exacerbadamente a aparência e ela fosse quem, na grande totalidade dos casos – sóbrios ou semi –, contasse, ainda havia certo culto ao intelecto ébrio, como se ele fosse o melhor galanteador das noites enegrecidas. Ainda assim, seu taco dizia para tentar a treze – estava com os pares, mas isso era injusto… treze sempre havia sido seu número. Mesmo no dois ou um. E qual o mal de acertar na bola? Nesses casos inocentes, um acerto sempre é um acerto, não importa o erro envolvido. Vai par...