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Os Íssimos

Morro de saudades do tempo em que eu podia gritar para todo mundo ouvir. Hoje é só sufoco, um sussuro inaudível antes de dormir, um pensamento vago pelos cantos da memória.. procurando companhia. Essa anestesia me cansa, a apatia, a falta de vontade. Quero de novo os superlativos, os muito , demais e sempre , os íssimos tão raros por todo lado. Aquele desejo enorme de acordar no outro dia porque nada falta, ainda que não tenhamos tudo. A segurança de se sentir compreendida, de ter alguém para quem perguntar o que eu quiser. Porque não sei de nada. Mas quero tudo . Muito, demais, sempre.

Mais alto que a maior das árvores

O sol aquentava a terra das samambaias e as poucas gotas envergonhadas nas pétalas das azaléias no pórtico, enquanto acompanhava a melodia inebriante dos pés apressados dentro de casa, loucos por tirar o máximo de proveito daqueles minutos de vida perfeita que se esvaíam. Um café da tarde como tantos outros, cujos paladares entorpeciam os dissabores de ambos. Sinatra invadia a sala, os raios de luz iam ficando oblíquos. Um olhar puxava o outro, em movimentos singelos e compassados, inflamados pelo calor da inesquecível voz azul. Eram dois corpos que voavam com o momento. A cada rodopio, as articulações se fragilizavam, os dedos perdiam a força. Fios de cabelo se apegavam à madeira do assoalho enquanto a tez perdia o viço. Envelheciam como tudo mais. O tempo dava conta de apagar cada sinal de vida, deixando em troca sardas e manchas por toda a pele. Um inimigo sem piedade, incorruptível, insubornável. Mas estava tudo bem. Ali, o tempo era deles. Vigiava-os do canto, mas os deixava serem...

A noite do meu dia

Houve uma época em que um "Bom dia" era o êxtase do meu dia. Ao receber esse cumprimento, não conseguia mais controlar minha boca, que se distendia num sorriso sem fim. O que se seguia ao "Bom dia" ficava na minha cabeça por dias e dias, virava nome de blog, senha de banco, data de dentista. Qualquer coisa de que precisasse me lembrar, era só usar o bendito "Bom dia" que dava certo. Ele, por si só, não se deixava esquecer. Ainda não deixa, embora tenha abrandado um pouco. Mas, hoje, tudo o que eu queria era um "Boa noite".

Fly me to the Moon

Tenho um vício. Que não tem nome. Tem timbre. Sou viciada na Voz - não em qualquer uma, veja bem. Cheguei ao ponto de carregar comigo, a todo tempo, minúsculas doses, escondidas da vista alheia em bolsos, sacolas, na bolsa... em momentos mais ousados, cerro-as na palma das mãos, como se ela pudesse absorvê-las e assim aliviar minha abstinência, sem necessariamente ceder. Escondo a Voz de todos, com medo da punição por meu crime. Mas ela não se esconde de mim. Ela me procura, incita, foge. Aparece por milésimos de segundos enquanto durmo, etérea, pacífica, entregando-se alva como a noite ao meu prazer. Sorri desajeitada e o impulso de agarrá-la e comê-la com todos os dentes me faz despertar. Penso nas doses, me regulo. Um café termina de me acordar, vou para o trabalho. No semáforo, tenho certeza de que a vi passando em outro carro, zombeteira por ter conseguido mais um. Mas, minha cara droga, eu não ligo se você quer se reproduzir loucamente por sorrisos fracos. Já te prendi para mim. ...

Desde Lá

Fico imaginando, por vezes, o texto de quem primeiro escreveu; aquelas poucas e parcas palavras espaçadas miudamente entre as intenções, desejosas de expressar algo que ainda não fora inventado. Pois tudo que escrevo tem aquele sumo antigo, que sai de outras palavras, de composições alheias.. aquele leve toque de baunilha floral, que só podia vir mesmo do campo. Não sei escrever sozinha. Os dias que passam em branco são uma perdição. Vou perdendo a fala, a maciez, a sutileza. Aquele texto rudimentar provavelmente não saiu de duas palavras. E o seguinte se inspirou nele, e a coisa foi crescendo, até a avalanche dos Márquez, Andrades, Alighieris e Cortázares. Uma enxurrada de tudo que é vida dentro das letras. E eu, muito mais do que eles, preciso dos livros para ganhar energia, tirar a ferrugem das vírgulas, respirar uma nova ideia.

Diário de Bordo

Viajar é maravilhoso, mesmo quando muita coisa não dá totalmente certo. Percebi isso ontem, ao receber a seguinte mensagem de minha amiga: Meninas! Hoje tava no meu espanhol e a profe perguntou se alguém já tinha tido algum problema durante uma viagem.... Coitada, não deveria ter feito essa pergunta... passei o resto da aula contando nossa incrível aventura por Madrid!! 1- Ao chegarmos na cidade, descobrimos que nosso bairro era um bairro gay, com direito a várias saunas! 2- Com uma temperatura agradável lá fora de 3 graus, a água quente acaba. 3- Um casal acaba deixando essa água fria ligada e simplesmente alaga todo o corredor e o nosso quarto. 4- Não sabíamos o que fazer na cidade, entao resolvemos dormir e assistir aos otimos canais de tv aberta que só passavam filme pornô. 5- Ver a gordinha jogando comida no homem. 6- Pegamos um metrô lotado em que todos ficavam empurrando a gente. 7- Descobrimos que, nesse empurra empurra, assaltaram a Yasmin. 8- Fomos pro n...

Soneto Só

Essa boca que não mais te beija ignora tudo que percorri Ainda tem os mesmos instintos, ainda te deseja, ainda te sorri. Contradiz tudo que quero, perto dos outros me trapaceia Exibe, tal qual voraz sereia, a mesma voz de manso melro. De face em face, perco a tua, em todo canto vejo a saída. Mas a brisa pelas brânquias se insinua Corta ríspida a mente, que, ao fim anuída, As lágrimas por vezes extenua; Procura, ainda que dela fuja, a recaída. Quero uma lei que proíba meu sorriso de te encontrar.