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Álcool, Fogo e Amores

Bola treze, vai na bola treze. A sinuca nunca fora sua maior paixão, embora envolver-se em problemas (mais do que sair de tais) fosse sua especialidade. Como havia criado confusões. E quase sempre não fez nada para resolvê-las, afinal, qual a graça de um circo se não estiver pegando fogo? Ainda que do fogo tivesse certo medo, a mão do rapaz é que tampava sua bebida flamejante, que em goles rápidos desaparecia. E depois vinham as longas conversas supostamente intelectuais, pois, por mais que se valorizasse exacerbadamente a aparência e ela fosse quem, na grande totalidade dos casos – sóbrios ou semi –, contasse, ainda havia certo culto ao intelecto ébrio, como se ele fosse o melhor galanteador das noites enegrecidas. Ainda assim, seu taco dizia para tentar a treze – estava com os pares, mas isso era injusto… treze sempre havia sido seu número. Mesmo no dois ou um. E qual o mal de acertar na bola? Nesses casos inocentes, um acerto sempre é um acerto, não importa o erro envolvido. Vai par...

Cheers in the Feast of Muses

Poetry, surge and nausea, poetry, suicidal song, poetry, that restarts from another world, in another life. You left us hungrier, poetry, strange food, if no bread equals you: the fly swallows the spider. Poetry, under the principles and the vague gifts from the universe: in your incestuous lap, the beautiful cancer of verse. Blue, in flames, the tellurium reinstates the poet's essence, and what is lost is rescued... Poetry, secret death. (Carlos Drummond de Andrade, "Brinde no Banquete das Musas" - translated by Adriana F. M. Oliveira)

The Arch

What wants the angel? to call her. What wants the soul? to be lost. To be lost in harsh guyanas to never again find itself. What wants the voice? to bewitch him. What wants the ear? to soak itself in blasphemous screams till it rests stunned. What wants the cloud? to kidnap him. What wants the body? to solve itself, to efface life's memory and all that is memory. What wants the passion? to stop him. What wants the chest? to close itself against the powers of the world to fuse itself in darkness. What wants the song? to rise itself in arch above the abyss. What wants the man? to rescue himself, to the prize of a song. (Carlos Drummond de Andrade, "O Arco" - translated by Adriana F. M. Oliveira)

Discovery

The tooth bites the poisoned fruit the fruit bites the poisoned tooth the poison bites the fruit and bites the tooth the tooth, biting itself, discovers now the toothsome pulp out of nothing. (Carlos Drummond de Andrade, "Descoberta" - translated by Adriana F. M. Oliveira) This is a poem by Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), the most influential Brazilian poet of the 20th century. He was born in Minas Gerais, lived in Rio de Janeiro, and died on August 17th. Why is it that I love him? Poema de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), o mais influente poeta brasileiro do século vinte. Nasceu em Minas Gerais, morou no Rio de Janeiro, e morreu em 17 de agosto. Por que será que o amo?

Rendição

Como é difícil amar um homem! Ao acordar, a falta do abraço, do rosto cansado, da pele áspera e tão, mas tão macia. Tudo me faz delirar. Toca uma música em algum lugar, vejo um filme, passa uma cena na televisão. Leio teu livro. E esse amor estranho me faz querer dividir tudo. Tudo o que antes, ah, antes era só meu. E fico confusa, sem saber o que fazer, como não ser chata ou irritante, ausente ou presente demais. Como matar todo o ciúme primitivo que acaba com as paixões. Das paixões, aliás, como manter o desejo vivo, num mar de estranhas doenças? Sinto a vida passar, e eu passo. Sem urgência, mas passo. E como é engraçado perceber que ainda não sei amar. Talvez Carson tivesse mesmo razão, pelo menos em algo. Da próxima vez, amo primeiro uma árvore. Um rochedo. Uma nuvem.

Outcome

Se tudo está bem, não há nada bem. E as saudades? Onde vai a garota colocá-las, agora que sua mala já está cheia de roupas e outras bobagens? Vou te levar comigo.

Desvendado

Há um clima geral de amizade por aqui. Mas não se encaixa. Querem o amor instantâneo, sem esforços. Desculpem-me, mas isso é muito enjoado, tais escolhas são a dedo. Avalia-se a longo prazo, pondera-se seus lados positivos, suas gentilezas e sorrisos. E, apesar de não ser competição, vence a mais digna. Não quero perder tempo com frivolidades. Gosto de idéias, de pessoas com idéias, da vontade e disposição tão raras por todo lado. Abomino músicas que não são músicas, o desafino, a dissonância, a autoridade com que se impõem. O mais importante, aqui, agora, sempre, é o coração. Então meus amigos têm coração, a ternura essencial em dose única para sustentar-nos face às tormentas do mundo. Eis meu mistério.