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Céu de Brigadeiro

As grades que se fechavam em minha liberdade já se afastaram, inibidas. Levaram consigo meu medo de que houvesse, numa das intempéries malucas da vida, afastado-me da única porta rumo ao paraíso. Já não acho que haja apenas uma entrada, mas também não tenho certeza de que quero entrar. Ou de que já não estou lá. Pois veja tamanha tranquilidade que se apodera de mim. Hoje, sem futuro e com um passado do qual me esqueço, não sou ninguém. E ser ninguém é supremo. É o outro extremo do verbo, a completa ausência instalada no dia-a-dia. Troquei minhas responsabilidades por pesos menores, deixei algumas preocupações para trás. Decidi-me pela indecisão, mãe de todas as encruzilhadas. Permito-me assim abranger tudo, deixando no horizonte o brilho do potencial. Não mais busco ser alguém, pois hoje não sou. E tudo o que sou me deixa em paz. Certa de ter cumprido o que me propus e honrado meus princípios, sei que posso me preparar para qualquer batalha vindoura, pois hoje o céu está limpo e a lua...

Que serait?

Das bordas do Aconcágua, ele me disse oi. Contou suas histórias, me chamou de gracinha, mais uma vez, em francês. Não bastou muito para voltarem todas as lembranças do que parecera outra vida. Fiquei revendo uma por uma, saboreando cada instante com a preguiçosa delicadeza de quem passou o dia sonhando acordada. E bastou menos ainda para que percebesse, como o estalo de uma folha seca ao se impor contra a sola batida, o impacto que grandes encontros causam nas decisões da borboleta. Mais que teoria do caos, veio para ordenar minha vida. Fico agora pensando no que será de tudo no próximo encontro.

Dos títulos da guerra

A vida ultimamente tem sido um circo. Mas daqueles de batalha. Tento, em vão, carregar-me das melhores armas disponíveis, sabendo que não estarão ali quando eu delas precisar. Mas preparar-me faz bem, anima a disposição, regula o intestino. Sinto que serei útil em breve. Útil para mim mesma, é verdade. Mas são pouquíssimos os sortudos que conseguem isso. Meu mês voa. O tempo dança com saudades de mim. Só que estou ausente. Angariando fundos para o confronto. Pesquisando táticas, estratégias, alternativas e, como em toda guerra, rotas de fuga. Fugir não é apenas sair correndo para longe do inimigo. É ficar, face serena e olhos calmos, observando a vitória do outro. E aceitar a nomeação que se impuser.

Os Íssimos

Morro de saudades do tempo em que eu podia gritar para todo mundo ouvir. Hoje é só sufoco, um sussuro inaudível antes de dormir, um pensamento vago pelos cantos da memória.. procurando companhia. Essa anestesia me cansa, a apatia, a falta de vontade. Quero de novo os superlativos, os muito , demais e sempre , os íssimos tão raros por todo lado. Aquele desejo enorme de acordar no outro dia porque nada falta, ainda que não tenhamos tudo. A segurança de se sentir compreendida, de ter alguém para quem perguntar o que eu quiser. Porque não sei de nada. Mas quero tudo . Muito, demais, sempre.

Mais alto que a maior das árvores

O sol aquentava a terra das samambaias e as poucas gotas envergonhadas nas pétalas das azaléias no pórtico, enquanto acompanhava a melodia inebriante dos pés apressados dentro de casa, loucos por tirar o máximo de proveito daqueles minutos de vida perfeita que se esvaíam. Um café da tarde como tantos outros, cujos paladares entorpeciam os dissabores de ambos. Sinatra invadia a sala, os raios de luz iam ficando oblíquos. Um olhar puxava o outro, em movimentos singelos e compassados, inflamados pelo calor da inesquecível voz azul. Eram dois corpos que voavam com o momento. A cada rodopio, as articulações se fragilizavam, os dedos perdiam a força. Fios de cabelo se apegavam à madeira do assoalho enquanto a tez perdia o viço. Envelheciam como tudo mais. O tempo dava conta de apagar cada sinal de vida, deixando em troca sardas e manchas por toda a pele. Um inimigo sem piedade, incorruptível, insubornável. Mas estava tudo bem. Ali, o tempo era deles. Vigiava-os do canto, mas os deixava serem...

A noite do meu dia

Houve uma época em que um "Bom dia" era o êxtase do meu dia. Ao receber esse cumprimento, não conseguia mais controlar minha boca, que se distendia num sorriso sem fim. O que se seguia ao "Bom dia" ficava na minha cabeça por dias e dias, virava nome de blog, senha de banco, data de dentista. Qualquer coisa de que precisasse me lembrar, era só usar o bendito "Bom dia" que dava certo. Ele, por si só, não se deixava esquecer. Ainda não deixa, embora tenha abrandado um pouco. Mas, hoje, tudo o que eu queria era um "Boa noite".

Fly me to the Moon

Tenho um vício. Que não tem nome. Tem timbre. Sou viciada na Voz - não em qualquer uma, veja bem. Cheguei ao ponto de carregar comigo, a todo tempo, minúsculas doses, escondidas da vista alheia em bolsos, sacolas, na bolsa... em momentos mais ousados, cerro-as na palma das mãos, como se ela pudesse absorvê-las e assim aliviar minha abstinência, sem necessariamente ceder. Escondo a Voz de todos, com medo da punição por meu crime. Mas ela não se esconde de mim. Ela me procura, incita, foge. Aparece por milésimos de segundos enquanto durmo, etérea, pacífica, entregando-se alva como a noite ao meu prazer. Sorri desajeitada e o impulso de agarrá-la e comê-la com todos os dentes me faz despertar. Penso nas doses, me regulo. Um café termina de me acordar, vou para o trabalho. No semáforo, tenho certeza de que a vi passando em outro carro, zombeteira por ter conseguido mais um. Mas, minha cara droga, eu não ligo se você quer se reproduzir loucamente por sorrisos fracos. Já te prendi para mim. ...